May 4, 2026
Vamos parar de chamar a mãe de “mãezinha”?
Pare de chamar a gestante de "mãezinha". Ela é muito mais do que isso
Você já parou para pensar no que significa, de verdade, gestar um ser humano? Não no sentido poético, mas no sentido literal, biológico, físico e emocional.
Uma mulher grávida está, simultaneamente, construindo um sistema nervoso, um coração, pulmões, ossos, uma identidade inteira, dentro do próprio corpo. Está dividindo seus nutrientes, seu oxigênio e a sua energia. Está reorganizando órgãos internos para dar espaço a uma vida que cresce e está se transformando de formas que ela mesma ainda está aprendendo a entender.
E o que a gente faz com tudo isso? Chama ela de "mãezinha".
O problema com o diminutivo
Eu sei que quem fala "mãezinha" quase sempre faz isso com carinho, sem más intenções, mas é exatamente aí que mora o problema, porque o diminutivo virou automático. E quando isso acontece, vale a pena perguntar: o que isso revela sobre a forma como a gente enxerga as mulheres?
"Mãezinha" diminui. "Tadinha, tá grávida" diminui. "Coitada, está sofrendo tanto" diminui. Toda essa linguagem, mesmo bem-intencionada, enquadra a gestante como alguém frágil, passiva, que precisa de proteção; e não como alguém que está realizando um dos feitos mais complexos que a biologia humana conhece.
O que a ciência diz sobre o corpo de uma gestante
Para entender a grandeza do que estamos falando, vale olhar para o que acontece no corpo de uma mulher durante a gravidez:
- O coração aumenta seu volume de trabalho em até 50% para dar conta do aumento do fluxo sanguíneo
- O útero cresce mais de mil vezes em volume ao longo da gestação
- O cérebro passa por reorganizações estruturais profundas
- Os neurônios se reestruturam para preparar a mulher para a maternidade
- O sistema imunológico realiza um equilíbrio extraordinário: protege o organismo e, ao mesmo tempo, tolera um ser geneticamente diferente crescendo dentro dele
- Os hormônios se reorganizam completamente, afetando praticamente todos os sistemas do corpo
Isso não tem nada de fragilidade!
A cultura de minimizar a gestante
O diminutivo é só a ponta do iceberg de uma cultura mais ampla que historicamente subestimou (e ainda subestima) o que as mulheres vivem no processo reprodutivo.
Durante séculos, o parto foi tratado como algo que as mulheres simplesmente "faziam", sem reconhecimento da magnitude desse processo. A dor era minimizada e a força necessária para parir era tratada como algo banal, afinal, "toda mulher faz isso".
Hoje, felizmente, estamos revisitando esse olhar. O movimento pelo parto humanizado, do qual faço parte com muito orgulho, parte exatamente dessa premissa: de que a mulher no centro do processo merece ser vista, respeitada e reconhecida em toda a sua capacidade.
Mudar a linguagem é parte disso. As palavras que usamos moldam a forma como enxergamos o mundo, e as pessoas nele.
O que muda quando a gente muda o olhar
Quando deixamos de tratar a gestante como frágil e passamos a reconhecê-la como protagonista de um processo extraordinário, tudo muda:
Na família: o suporte deixa de ser "cuidar de alguém que não consegue se virar" e passa a ser "apoiar alguém que está fazendo algo imenso". Essa diferença é enorme para a saúde emocional da gestante.
No trabalho: a gestante deixa de ser vista como um problema de logística e passa a ser reconhecida como uma profissional que está, paralelamente, realizando algo que exige muito do seu corpo e da sua mente.
No sistema de saúde: a mulher que é vista, participa ativamente das decisões sobre seu parto e sua gestação. Ela pergunta, escolhe e decide, em vez de apenas obedecer.
Na autoestima da própria gestante: quando a narrativa ao redor dela é de força e não de fragilidade, ela internaliza isso. E essa autoconfiança faz diferença real no parto, no pós-parto, na maternidade.
Para quem convive com gestantes
Se você quer apoiar de verdade uma mulher grávida, comece pela linguagem. Algumas trocas simples que fazem diferença:
Em vez de "tadinha, está sofrendo tanto" → "você está sendo incrível atravessando tudo isso"
Em vez de "mãezinha, vai com calma" → "você está dando conta de algo enorme"
Em vez de "coitada, deve estar tão cansada" → "faz sentido estar cansada, seu corpo está trabalhando sem parar"
Para a gestante que está lendo isso
Você não é "mãezinha". Você não é "tadinha". Você não é coitada.
Você está criando um sistema nervoso, construindo um coração, gestando uma identidade inteira que ainda não existe no mundo. Você vai parir uma pessoa, e isso, independente de como esse parto aconteça, é um dos atos mais poderosos que existem.
Você pode estar exausta, com medo, com náusea e dor nas costas, insônia e tudo mais. E ainda assim, especialmente por causa de tudo isso, você é sim uma potência. Não deixe que ninguém te convença do contrário.
Dra. Midiã Vergara Bandeira
Ginecologia Obstetrícia
CRM 28972-PR RQE 19354
Dra. Midiã Vergara Bandeira
Ginecologia Obstetrícia
CRM 28972-PR RQE 19354